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Coral São Manuel e o Conservatório Musical Santa Marcelina

Os avós passavam muitas coisas para os filhos, e os filhos depois passavam para os netos. Eram objetos que tinham história. Teciam o fio que unia o passado ao futuro. Isso está longe de ser pejorativo. Precisamos de objetos para mediar nossas relações – todo o mundo já deu presente a quem gosta. Objetos são coisas que presentificam o curso da história e dão testemunho do passado de quem existiu. Sem isso, tudo seria ação que se perdeu. Teríamos, no máximo, nossa memória. (…) Minha distinção fundamental é a de que é apreciável e enriquecedor tudo o que ajuda a manter responsável para com a coletividade e as novas gerações.

(COSTA, Jurandyr Freire. Caderno “Aliás”, O Estado de São Paulo, 12/12/04).

Meu contato com a Profa. Maria do Carmo de Oliveira Faraco iniciou-se nos bancos escolares. Professora de inglês dedicada, exercia sobre os alunos mais que uma influência acadêmica, estabelecendo vínculos que perdurariam por toda sua vida.

Anos mais tarde, tive a oportunidade de reencontrá-la com o regente do Coral São Manuel. Firmava e estreitava-se nossa amizade e abria-se, para mim, o encantador mundo da música vocal.

D. Carminha – carinhosamente, para nós – trazia o aprendizado de música de família e, junto com a mãe, Vó Amelinha, cuidaram de dar continuidade aos trabalhos do Coral São Manuel, iniciados pelo Pe. José Girardi, em São Manuel.

Amante da música e da família foi que, no dia da formatura da sobrinha Heloísa Helena Portela Bertozo, D. Carminha muniu-se de seu, na época “potente”, gravador de rolo de marca Geloso e gravou a apresentação pela sua formatura no Conservatório Musical Santa Marcelina, em Botucatu, em 1974.

Agravando-se o estado de saúde da Vó Amelinha, D. Carminha precisou ausentar-se da regência do Coral, o qual ficou a cargo da Profa. Elizabeth Marina Nelli Santiago, de quem me tornei também grande amigo e que estudou no Conservatório Musical Santa Marcelina de Botucatu.

Como se pode observar, a história do Coral São Manuel está bastante ligada à do Conservatório Santa Marcelina.

Pouco antes de falecer, D. Carminha confiou-me a guarda de sua preciosidade e algumas fitas de rolo. Na maioria elas contêm gravações das apresentações em Missa do Coral São Manuel. Mas dentre todas, encontre esta que vem a ser um verdadeiro tesouro para aqueles que ali se faziam presentes.

Fui à busca de informações, querendo um pouco fazer surpresa. Pouca coisa consegui. Mas soube que outros amigos estavam ali se formando: Sônia Gimenes Corrêa, Moacyr Carlos Junior e Márcia Furrier Guedelha Blasi.

Para dar conta à confiança que me foi depositada e função àquele instrumento, surgiu a ideia de transformar aquela gravação em CD.

Essa ideia do psicanalista Jurandyr me fascina: preservar o passado e transmitir os bens culturais, espirituais e materiais, ideia tão distante dessa modernidade líquida.

A gravação foi feita de forma bastante simples naquela época e igualmente transferida de maneira artesanal para CD. Contudo, esse registro não pode extinguir-se em si mesmo, mas tomar os rumas da mais ampla divulgação, principalmente entre aqueles que dividiram tanta emoção há tantos anos.

Trouxe para cá apenas uma das músicas apresentadas na ocasião: Garota de Ipanema, justamente a que foi regida pela Heloísa.

Eccho, o CD gravado pelo Coral São Manuel

“Todas as sociedades, desde a mais antiga e tradicional à mais urbana e contemporânea, possui alguns ritos e compõem para eles. O mundo sempre esteve regido pela religiosidade, por Deus ou por outras divindades; aos homens, cabe alimentá-los, seja com suas preces, seja com seus cantos. (…) Independentemente dos rituais e das passagens que cada religião possui, celebra-se alguma coisa: paixão – morte – vida. Essa passagem tão pouco conhecida pelo homem. (…) A paixão, às vezes entendida com um processo de agonia, se transforma para o cristianismo numa passagem histórica, em que o percurso de Cristo é descrito pari-passu desde o beijo de Judas até a crucificação.” Maurício Monteiro – produtor e pesquisador -, in Paixão, Morte. Ressurreição e Música, Guia do Ouvinte Cultura FM 103,3, n.º 133, abril 1998, pg. 2.

A música sacra encontrou, portanto, na paixão, morte e ressurreição de Cristo, o seu manancial mais completo, em cujo a maioria dos compositores encontrou inspiração, criando as obras mais belas da História da Música.

No mundo todo, por ocasião da celebração dos ritos da Semana Santa, diversas entidades musicais dedicam-se a interpretação do repertório específico.

Em São Manuel, essa tradição remonta ao final do século passado, como demonstra o jornalista Luiz Sicchiera, em seu Raízes de São Manuel: “(…) as funções religiosas eram esporádicas por falta de um capelão permanente que somente veio a ser efetivado em 1885 (…) tendo sua investidura no cargo de vigário o padre Benigno Castro Peres. Este sacerdote, da circunspecta raça castelhana, de elevada cultura e profunda perspicácia, muito contribuiu para conciliar desentendimentos e suprimir dificuldades (…). Amante das artes e realizando pela primeira vez completo ritual celebrativo da Semana Santa, fez vir do Rio de Janeiro uma orquestra e coral regido pela maestrina Maria Teresa Edwiges Meireles Abdon (…). Deixaram memória as Solenes Missas e demais cerimônias que por longos anos mantiveram no mais alto conceito o nome de São Manuel como a Terra de Músicos.”

A partir de então, a música sacra em São Manuel teve o respaldo dos corais formados pelas “Filhas de Maria”, cuja tradição remonta aos descendentes da maestrina Tereza Abdon. Tal configuração só veio a alterar-se com a chegada a São Manuel do Instituto Missões Consolata, primeira localidade onde ele se instalou, no Brasil.

Os padres, liderados pelo Pe. João Batista Bisio, chegaram ao Brasil na década de 40. Mais tarde criaram o Seminário Santa Terezinha. Formaram, com o material trazido da Europa, uma vasta musicoteca que fazia parte da Biblioteca do Seminário.

Nos idos dos anos 60, por iniciativa do compositor e regente Pe. José Girardi, que, unindo as vozes masculinas do Seminário às femininas da comunidade católica, criou o Coral Paroquial, com o qual continuava embelezando as cerimônias da Semana Santa, Natal e outras festividades sempre ligadas à Igreja, aproveitando o material trazido pela Congregação.

O Coral São Manuel teve sua origem neste coro formado pelo Pe. José Girardi. Seu nome está ligado ao da cidade à qual pertence para bem representá-la por onde quer que vá. Mas foi efetivamente em 1980 que o Coral São Manuel, tendo à frente as professoras Maria do Carmo de Oliveira Faraco e Amélia Ramos de Oliveira Faraco (neta de Tereza Abdon e de quem recebeu os primeiros ensinamentos musicais), que traziam o aprendizado de música transmitido pela família, e com formação já não dependente do desativado Seminário, apresentou a 1.ª Vigília de Natal e, no ano seguinte, o I Concerto de Inverno, com músicas de Schubert, Mozart, Bach, Verdi, Lamartine Babo e Pixinguinha, entre outros.

Sucederam-lhes, na direção, as professoras Elizabeth M. Nelli Santiago e Marisa Daniel Barbosa Carvalho.

Desde 1991, sob a regência de Antonio Carlos Martorelli de Lima, o Coral São Manuel continuava a manter essa tradição de São Manuel, dedicando-se a quase todos os estilos musicais – Renascença (Palestrina, Orlando di Lasso, Victoria, A. Lotti, J. Croce, Banchieri, etc.), MPB, popular internacional (Gilberto Gil, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, George Harrison, Ary Barroso, etc.), spirituals, barroco colonial brasileiro (Jezuíno do Monte Carmelo, Pe. José Maurício Nunes Garcia), música moderna (Heitor Villa-Lobos, Martin Shaw) e música folclórica – nunca deixou de lado seu vasto e maravilhoso repertório sacro.

Contava em média com 35 elementos distribuídos pelos quatro naipes básicos, constituindo-se de leigos, atuando nas mais diversas profissões, com idade de 13 anos em diante.

O Coral São Manuel apresentava-se, quase que exclusivamente “a capella” em Igrejas, salas de concertos, teatros, rádios e TVs e participou de Encontros de corais em Avaré, Bauru, Jaú, Botucatu, Itapeva, Riversul, e Itararé e apresentou concertos e missas em São Paulo (Rádio e TV Record), Aparecida, Agudos, Pirapora do Bom Jesus, Barra Bonita, Botucatu, Bauru, Marília, Lençóis Paulista, Piracicaba e Itaporanga.

No ano de 1995, classificou-se em 2.º lugar no Mapa Cultural PaulistaModalidade Canto Coral -, pela região de Sorocaba, realizado em Avaré e, em 1996, 3.° lugar no mesmo evento, desta feita, na cidade de Itapeva.

O Coral São Manuel tinha participação efetiva nas celebrações da Semana Santa e Natal da paróquia e promovia a Série de Concertos de Natal e a Série de Concertos Santa Cecília, onde trazia a São Manuel corais de diversas regiões Bienalmente, promovia a Mostra de Corais (anos ímpares) e concertos solo (anos pares).

Com base neste histórico, a Cultural Associação Artística Sãomanuelense – Cultas, através do Coral São Manuel, deixou registrado no CD “Eccho” uma amostra de seu trabalho, preocupado em preservar as tradições da cidade e em difundir este riquíssimo repertório tão pouco divulgado, “ecoando-o” por todo o território nacional.

COMUNICANÇÃO – O informativo do Coral São Manuel

 

Nos idos dos anos 1980, e, mais tarde, em 2004, o Coral São Manuel editava um informativo mensal, Comunicanção, de circulação interna, que trazia textos dos integrantes do grupo, auxiliava na integração dos componentes do Coral e divulgava o trabalho do mesmo.

O jornalzinho era inicialmente mimeografado. Aquele cheiro de álcool alvoroçava os ensaios quando da distribuição do Comunicanção e a D. Carminha, a regente, lutava para conseguir a concentração e prosseguir a execução da música.

Foi uma época muito divertida. Mas não só. O Coral São Manuel, cujo histórico já se encontra postado aqui, foi responsável por uma das iniciativas culturais mais duradouras de São Manuel.

É lamentável que tenha se findado.

Postarei oportunamente todos os números e por eles será possível compreender o desenvolvimento do grupo, desde seu repertório naqueles anos, como também a própria dinâmica que fazia com que o grupo se renovasse sempre e permanecesse vivo.

Boa diversão e leitura!

Comunicanção – Ano I – Nº 1 – 06mai84

Comunicanção – Ano I – Nº 2 – 02jun84

Comunicanção – Ano I – Nº 3 – 04jul84

Comunicanção – Ano I – Nº 4 – 03ago84

Comunicanção – Ano I – Nº 5 – 06set84

Comunicanção – Ano I – Nº 6 – 03out84

Comunicanção – Ano I – Nº 7 – 08nov84

Comunicanção – Ano II – Nº 8 – 09mar85

Comunicanção – Ano II – Nº 9 – 03abr85

Comunicanção – Ano II – Nº 10 – 10mai85

Comunicanção – Ano II – Nº 11 – 10juni85

Comunicanção – Ano II – Nº 12 – 06jul85

Comunicanção – Ano II – Nº 13 – 10ago85

Comunicanção – Ano II – Nº 14 – 09set85

Comunicanção – Ano II – Nº 15 – 11out85

Comunicanção – Ano II – Nº 16 – 09nov85

Comunicanção – Ano III – Nº 17 – 12abr86

Comunicanção – Ano III – Nº 18 – 10mai86

Comunicanção – Ano III – Nº 19 – 15jun86

Comunicanção – Ano III – Nº 20 – 08jul86

Comunicanção – Ano III – Nº 21 – 14ago86

Comunicanção – Ano III – Nº 22 – 08nov86

Comunicanção – Ano III – Nº 23 – 19dez86

Comunicanção – Ano IV – Nº 24 – jul96

Comunicanção – Ano IV – Nº 25 – ago96

Os Concertos de Natal do Coral São Manuel e Madrigal Ars Cantandi

Durante a existência do Coral São Manuel, que, posteriormente, transformou-se no Madrigal Ars Cantandi, a época do Natal sempre foi uma das mais movimentadas.

Foi numa dessas ocasiões que passei a integrar o grupo e, desde então, a música passou a ter um novo significado, talvez imprimindo àquelas ocasiões o clima que tornava a data tão festiva para mim e para muitos do Coro.

Como relata um dos programas, o Natal é mesmo uma das festas cristãs que mais tem inspirados os compositores. São incontáveis as obras dedicadas aos acontecimentos relembrados nesta época.

Assim, percorrendo os vários anos de existência do Coral, trago os programas de Natal, algumas fotos, com algumas das músicas que apresentamos naquele momento.

Para muitos, será como reviver aqueles dias que tornavam o nosso Natal tão emocionante e muito alegre.

Coral São Manuel

Reg.: Maria do Carmo de Oliveira Faraco

Missa do Galo – 24 de dezembro de 1980

Santuário Santa Terezinha – São Manuel (SP)

Coral São Manuel

Reg.: Elizabeth Maria Nelli Santiago

Saída para cantar na Igreja São Dima em São Paulo – novembro de 1987

São Manuel (SP)

 

Coral São Manuel

Reg.: Marisa Daniel Barbosa de Carvalho

6º Concerto de Natal – Dezembro de 1988

Igreja Matriz de São Manuel – São Manuel (SP)

Madrigal Ars Cantandi

Reg.: Antonio Carlos Martorelli de Lima

III Mostra Mackenzie de Música Sacra – 25 de julho de 2003

Auditório da Escola Americana do Mackenzie – São Paulo (SP)

Coral São Manuel

Reg.: Antonio Carlos Martorelli de Lima

16ª Série de Concertos de Natal – dezembro de 2000

Igreja Matriz de São Manuel – São Manuel (SP)

Coral São Manuel

Reg.: Antonio Carlos Martorelli de Lima

16ª Série de Concertos de Natal – 1º de dezembro de 2001

Igreja Matriz de São Manuel – São Manuel (SP)

Coral São Manuel

Reg.: Antonio Carlos Martorelli de Lima

XVI Série de Concertos de Natal – 02 de ezembro de 2001

Basílica Menor de Sant’Ana – Botucatu (SP)

Coral São Manuel

Reg.: Antonio Carlos Martorelli de Lima

Attendite et videte – 04 de abril de 2004

Igreja Nossa Senhora da Consolação – São Paulo (SP)

Madrigal Ars Cantandi

Reg.: Antonio Carlos Martorelli de Lima

18ª Série de Concertos de Natal – 14 de dezembro de 2003

Teatro Municipal de São Manuel – São Manuel (SP)

Madrigal Arts Cantandi

Reg.: Antonio Carlos Martorelli de Lima

20ª Série de Concertos de Natal – 17 de dezembro de 2005

Museu do Theatro Municipal de São Paulo – São Paulo (SP)

Coral São Manuel

Reg.: Antonio Carlos Martorelli de Lima

Festival de Música Sacra – 27 de outubro de 2002

Catedral Evangélica – São Paulo (SP)

Madrigal Arts Cantandi

Reg.: Antonio Carlos Martorelli de Lima

Paz Natal – 15 de dezembro de 2055

Em frente ao Hotel Astral – São Manuel (SP)

Há exatos 11 anos, um concerto primoroso pelo extinto Coral São Manuel

Hoje faz 11 anos – foi em 23 de junho de 2000 -, que o Caral São realizou um dos concertos mais primorosos de sua existência, razão pela qual, posto o seu histórico.

“Todas as sociedades, desde a mais antiga e tradicional à mais urbana e contemporânea, possui alguns ritos e compõem para eles. O mundo sempre esteve regido pela religiosidade, por Deus ou por outras divindades; aos homens, cabe alimentá-los, seja com suas preces, seja com seus cantos. (…) Independentemente dos rituais e das passagens que cada religião possui, celebra-se alguma coisa: paixão – morte – vida. Essa passagem tão pouco conhecida pelo homem. (…) A paixão, às vezes entendida com um processo de agonia, se transforma para o cristianismo numa passagem histórica, em que o percurso de Cristo é descrito pari-passu desde o beijo de Judas até a crucificação.” Maurício Monteiro – produtor e pesquisador -, in Paixão, Morte. Ressurreição e Música, Guia do Ouvinte Cultura FM 103,3, n.º 133, abril 1998, pg. 2.

A música sacra encontrou, portanto, na paixão, morte e ressurreição de Cristo, o seu manancial mais completo, em cujo a maioria dos compositores encontrou inspiração, criando as obras mais belas da História da Música.

No mundo todo, por ocasião da celebração dos ritos da Semana Santa, diversas entidades musicais dedicam-se a interpretação do repertório específico.

Em São Manuel, essa tradição remonta ao final do século passado, como demonstra o jornalista Luiz Sicchiera, em seu Raízes de São Manuel: “(…) as funções religiosas eram esporádicas por falta de um capelão permanente que somente veio a ser efetivado em 1885 (…) tendo sua investidura no cargo de vigário o padre Benigno Castro Peres. Este sacerdote, da circunspecta raça castelhana, de elevada cultura e profunda perspicácia, muito contribuiu para conciliar desentendimentos e suprimir dificuldades (…). Amante das artes e realizando pela primeira vez completo ritual celebrativo da Semana Santa, fez vir do Rio de Janeiro uma orquestra e coral regido pela maestrina Maria Teresa Edwiges Meireles Abdon (…). Deixaram memória as Solenes Missas e demais cerimônias que por longos anos mantiveram no mais alto conceito o nome de São Manuel como a Terra de Músicos.”

A partir de então, a música sacraem São Manuelteve o respaldo dos corais formados pelas “Filhas de Maria”, cuja tradição remonta aos descendentes da maestrina Tereza Abdon. Tal configuração só veio a alterar-se com a chegada a São Manuel do Instituto Missões Consolata, primeira localidade onde ele se instalou, no Brasil.

Os padres, liderados pelo Pe. João Batista Bisio, chegaram ao Brasil na década de 1940. Mais tarde criaram o Seminário Santa Terezinha. Formaram, com o material trazido da Europa, uma vasta musicoteca que fazia parte da Biblioteca do Seminário.

Durante a década de1950, aantiga Escola Normal, hoje EESG “Dr. Manoel José Chaves” trazia para o seu quadro docente professores de conceituado nome e foi assim, que, na antiga cadeira de Música, esteve a Profa. Dilza Kerr, família bastante conhecida no ramo da música. Nesta ocasião, formou-se, então, o Orfeão Villa-Lobos, responsável por um repertório coral significativo, que originou, inclusive, a gravação de um disco.

Por outro lado, nos idos dos anos 1960, por iniciativa do compositor e regente Pe. José Girardi, que, unindo as vozes masculinas do Seminário às femininas da comunidade católica, criou-se o Coral Paroquial que continuava embelezando as cerimônias da Semana Santa, Natal e outras festividades sempre ligadas à Igreja, aproveitando o material trazido pela Congregação.

O Coral São Manuel tem sua origem neste coro formado pelo Pe. José Girardi, aproveitando ainda os antigos componentes do Orfeão Villa-Lobos. Seu nome está ligado ao da cidade à qual pertence para bem representá-la por onde quer que vá. Mas, foi, efetivamente, em 1980, que o Coral São Manuel, tendo à frente as professoras Maria do Carmo de Oliveira Faraco e Amélia Ramos de Oliveira Faraco (neta de Tereza Abdon e de quem recebeu os primeiros ensinamentos musicais), que traziam o aprendizado de música transmitido pela família, e com formação já não dependente do desativado Seminário, apresentou a 1.ª Vigília de Natal e, no ano seguinte, o I Concerto de Inverno, com músicas de Schubert, Mozart, Bach, Verdi, Lamartine Babo e Pixinguinha, entre outros.

Sucederam-lhes, na direção, as professoras Elizabeth M. Nelli Santiago e Marisa Daniel Barbosa Carvalho.

De 1991 em diante, esteve sob a regência de Antonio Carlos Martorelli de Lima, o Coral São Manuel mantinha essa tradição na cidade de São Manuel. Indo, então, dedicar-se a quase todos os estilos musicais – Renascença (PalestrinaOrlando di Lasso, Victoria, A. Lotti, J. Croce, Banchieri etc.), MPB, popular internacional (Gilberto Gil, Chico Buarque, Vinicius de Moraes, George Harrison, Ary Barroso etc.), spirituals, barroco colonial brasileiro (Jezuíno do Monte Carmelo, Pe. José Maurício Nunes Garcia), música moderna (Heitor Villa-Lobos, Martin Shaw) e música folclórica – nunca deixou de lado seu vasto e maravilhoso repertório sacro.

Contava, em média, com 30 elementos distribuídos pelos quatro naipes básicos e constituia-se de leigos, atuando nas mais diversas profissões, com idade de 13 anos em diante.

O Coral São Manuel apresentava-se, sob a regência de Antonio Carlos Martorelli de Lima, quase que exclusivamente “a capella” em Igrejas, salas de concertos, teatros, rádios e TVs. Participou de Encontros de corais em Avaré, Bauru, Jaú, Botucatu, Itapeva, Riversul, e Itararé e apresentou concertos e missasem São Paulo (Rádio e TV Record), Aparecida, Agudos, Pirapora do Bom Jesus, Barra Bonita, Botucatu, Bauru, Marília, Lençóis Paulista, Piracicaba e Itaporanga.

No ano de 1995, classificou-se em 2.º lugar no Mapa Cultural PaulistaModalidade Canto Coral –, pela região de Sorocaba, realizado em Avaré e, em 1996, 3.° lugar no mesmo evento, desta feita, na cidade de Itapeva.

No ano de 1998, gravou o CD “Eccho”, com repertório de músicas da Renascença e do período colonial brasileiro.

Em 2002 participou do Projeto Sacra Música, organizado pela Pontifícia Universidade Católica, realizando um Concerto na Capela da PUC e do VII Festival de Música Sacra, na Catedral Evangélica de São Paulo, organizado pelo Collegium Musicum e pela Associação Paulista de Regentes Corais – APARC.

O Coral São Manuel promovia, também, anualmente a Série de Concertos de Natal – no ano passado, que chegou à sua 20a edição –, através da qual já se apresentou nas cidades de Botucatu, São Carlos eem São Paulo, no Santuário Nossa Senhora de Fátima e na Igreja Nossa Senhora da Consolação.

Iniciou, também, a Série de Concertos Santa Cecília e pela qual trouxe a São Manuel o Coral Misericórdia Botucatuense; Madrigal Anima – Bauru; Coral da Cultura Inglesa – São Paulo; Oktoechos – Bauru; Grupo Vocalis – São José dos Campos e o Collegium Musicum – São Paulo e o Conjunto Vocal Arabesco, de Lençóis Paulista (SP).

Um grupo dentro do Coral São Manuel, formou, em janeiro de 2003, o Madrigal Ars Cantandi, com cerca de 18 elementos para executar obras de diversos períodos da história da música, sob a regência de Antonio Carlos Martorelli de Lima. Em junho deste ano, o Madrigal participou da III Mostra Mackenzie de Música Sacra,em São Paulo (SP).

Porém, em agosto de 2006, o Madrigal Ars Cantandi teve sua última apresentação. Desde então, não houve quem manifestasse qualquer intenção de patrocinar aquele grupo ou mesmo a criação de um novo coral para a cidade, dificultando, cada vez mais, a possibilidade de se ver surgir manifestação dessa natureza aqui.

Segue uma das amúsicas apresentadas naquele concerto:

 

Valsa “São Manuel”

Traços Históricos da Valsa “São Manuel”

 As palavras da Professora Maria do Carmo de Oliveira Faraco assim descrevem a criação da Valsa “São Manuel”:

“Numa ocasião em que visitava a Rádio Clube de Bauru, a autora da Valsa ‘São Manuel’ – a saudosa Professora Amélia Ramos de Oliveira Faraco, carinhosamente conhecida como Vó Amelinha –, teve o prazer de ouvir a música oficial da cidade de Bauru, na execução de uma belíssima orquestra. Pensou no encanto singular de cada cidade ter a sua música.

Surgiu assim a idéia de compor um hino, uma canção para a sua querida São Manuel. Letra e música surgiram simultaneamente, uma inspirando-se na outra, completando-se e amoldando-se nos detalhes técnicos de música e compasso, harmonia e ritmo. Nascia fácil, fruto de profundo amor à terra natal.

Estávamos no fim da década de 1930. aparecia no cenário musical a “Valsa São Manuel”, inspirada no coração de uma são-manuelense, que ofertou sua primeira audição à Rádio Clube de São Manuel, como um belo presente de aniversário, no dia 31 de julho de 1943. Na linda voz de uma jovenzinha, também são-manuelense, sua filha Helena, o presente de aniversário estendeu-se a todo o povo de São Manuel, através de sua Rádio Clube. Nesta primeira audição pública, a Valsa teve o ensejo de ter a própria autora ao piano. Mãe e filha completavam-se na maviosidade da execução, encantando a todos quantos a ouviram. A Valsa falava muito ternamente no coração da gente são-manuelense e seu sucesso, desde a primeira apresentação, prendia-se muito ao lado de valor literário e musical que oferecia, ao amor à terra natal.

A partir dessa primeira apresentação, a Valsa ‘São Manuel’ tem sido executada, se bem que por poucas vezes, em festas escolares do município e em alguns programas de rádios locais. Suas apresentações variam de solo a corais, como também no tocante à instrumentação. Uma apresentação que mereceu época na história da Valsa ‘São Manuel’ foi sua execução a quatro vozes pelo Coral do Instituto de Educação Estadual ‘Dr. Manuel José Chaves’, tradicional estabelecimento de ensino local, sob a regência do Maestro Pe. José Girardi, em 1969, regente da cadeira de Música e Canto Orfeônico do citado estabelecimento na época, autor do magnífico arranjo apresentado. Este Coral também levou até a capital do Estado a Valsa, através do programa de televisão ‘Cidade contra Cidade’.

A idéia de oficialização da Valsa ‘São Manuel’ surgiu num programa da Rádio Clube de São Manuel, no ‘Clube da Sexta-Feira’, produzido e apresentado pelo Dr. Daniel de Oliveira Neves Filho. Um grande número de adesões, por escrito, foi entregue ao vereador Prof. Adhemar Augusto, para que elaborasse um projeto de lei que regulamentasse a referida oficialização. Isto se passava em agosto de 1959, encontrando-se documentado no jornal ‘O Tempo’, órgão da imprensa local, em sua edição de 9 de agosto de 1959. Então, numa sessão da Câmara Municipal de São Manuel, foi apresentado o projeto de Lei n.º 25/59, de autoria do operoso edil Prof. Adhemar Augusto, pelo qual ‘considerava-se como música oficial (grifo nosso) do Município a Valsa intitulada ‘São Manuel’, de autoria de D. Amélia Ramos de Oliveira Faraco’. Julgado ensejo de deliberação e referido projeto foi encaminhado às comissões competentes, para estudos e pareceres. Foi assim que a 8 de janeiro de 1960 foi promulgado pelo Prefeito Municipal, Sr. Carlos Delgallo, a Lei n.º 368, decretando em seu artigo 1o: ‘considerar-se como música oficial do Município de São Manuel a Valsa intitulada ‘São Manuel’, de autoria de D. Amélia Ramos de Oliveira Faraco’ e, no seu artigo 2o: ‘constituir-se patrimônio exclusivo do Município os direitos autorais, arranjos, orquestrações, impressão e distribuição’, revogando-se, em seu artigo 3o, as disposições em contrário.

Esta resolução do Prefeito Municipal, Sr. Carlos Delgallo, chegou até a imprensa paulistana, através de notícia publicada no jornal ‘Diário de São Paulo’, edição de 29 de janeiro de 1960, na seção ‘Interior’. Cumpre dizer que o Sr. Prefeito Municipal tinha em grande apreço a cultural musical.

A Valsa ‘São Manuel’ tem sido interpretada e executada pelo Coral São Manuel, em suas múltiplas apresentações, quer em concertos, quer em festas cívicas, tendo-se a salientar a maviosidade harmônica de seu conjunto de vozes. Uma de suas apresentações de grande relevância foi no programa ‘A Cidade faz o Show’, transmitido pela TV Cultura, que aqui esteve colhendo aspectos turísticos, culturais e folclóricos da cidade e do município. O Coral São Manuel –  sob a regência da Prof.ª Mariza Daniel Barbosa de Carvalho –, encerrou o programa, que foi ao ar em 2 de outubro de 1988, com a Valsa São Manuel, num lindo arranjo a três vozes, criado pela sua própria autora.”

Os relatos sobre a história da Valsa não se encerram nas palavras da nossa querida e saudosa D. Carminha, a qual, por incontáveis vezes, regeu o Coral entoando a Valsa.

Por ocasião dos concertos comemorativos aos 128 Anos de São Manuel, em 29 de junho de 1998, e, mais adiante, aos 500 Anos do Brasil, em 29 de abril de 2000, o Coral São Manuel e a Orquestra Sinfônica Jovem da Escola de Música de Piracicaba, regidos por Antonio Carlos Martorelli de Lima, executaram a Valsa, aproveitando o arranjo do Pe. José Girardi, com arranjo para orquestra da maestrina Cíntia Pinotti.

Outro grande marco na sua história deu-se no dia 19 de setembro de 1998, quando foi executada pelo Coral do Estado de São Paulo, regido pelo Maestro José Ferraz de Toledo, durante o concerto realizado no Teatro Municipal de São Manuel.

Paritura da Valsa “São Manuel”, em arranjo para 3 vozes mistas, feita pela própria autora:

Valsa São Manuel – Amélia Ramos de Oliveira Faraco – 3 v 2

Paritura da Valsa “São Manuel”, em arranjo para 4 vozes mistas, feita pelo Pe. José Girardi:

Valsa São Manuel – Amélia Ramos de Oliveira Faraco – 4 v – Arr. Pr. Girardi 2

Concerto de Natal

Por muitos e muitos anos, este título era pra fazer um convite à população de São Manuel.

Introduzi-me no canto coral mais exatamente em setembro de 1980, quando a saudosa D. Carminha organizava os ensaios do Coral São Manuel para a Celebração da Missa do Galo, que, àquela época, se dava exatamente à meia-noite.

Naquele ano, estava entre os Missionários da Consolata, que cuidavam da Paróquia, o Pe. Orazio Anselmi. O Orazio, como o chamávamos, gostava de incrementar os festejos e, para aquele ano, organizou uma Vigília, uma hora antes da Missa, com leituras, cânticos e um presépio vivo.

A D. Carminha teve, então, que ampliar o repertório natalino, antes somente destinado à Missa.

A partir daquele momento, para mim, as festividades do Natal ganharam sentido especial e, desde então, não consigo dissociá-lo da música.

A nossa cidade era agraciada com a existência do Coral. No mês de dezembro, infalivelmente, se organizava uma série de concertos de Natal, inclusive contando, muitas vezes, com a presença de grupos de outras localidades.

Isso durou por cerca de mais de vinte e cinco anos.

Findo o Coral, a cidade ficou órfã de música de boa qualidade nesta época.

Contudo, nestes últimos anos tive a sorte de assistir a memoráveis concertos por ocasião do Natal. O primeiro, O Messias, de Handel, com a Osesp, sob regência de Minczuk. O segundo, com os Canarinhos de Petrópolis e a Osusp, na Sala São Paulo, quando interpretaram o Oratório de Natal, de Bach.

No ano passado, pude assistir ao inesquecível concerto do Coro da Camerata Antiqua de Curitiba, lá mesmo, que apresentou músicas do repertório, desde a Renascença até contemporâneas.

Este ano, tive a sorte de assistir ao Coro da Osesp, acompanhado da Camerata Antiqua de Curitiba, sob a regência de Naomi Munakata, na Sala São Paulo.

A Camerata é um dos grupos mais reconhecidos no país.

Tive a oportunidade de conhecê-la de uma forma muito interessante. A Beth Santiago (infelizmente já falecida), quando regia o Coral, esteve num Festival em Campos e gravou em fita cassete uma apresentação do grupo, executando a Missa Lord Nelson, de Haydn. Tenho a fita até hoje. Relíquia, agora. Mas o interessante é que, logo no início do Sanctus, faltou energia no Auditório Cláudio Santoro. Orquestra e coro foram diminuindo até terminar aquele movimento. Mesmo pela fita cassete, é possível perceber a emoção do momento.

Depois, pude ver o grupo por várias vezes e, agora, juntamente com o aclamado Coro da Osesp.

No programa o moteto para coro e baixo contínuo Lobet den Herrn, alle Heiden, de Bach, que o coro executou com precisão milimétrica. O moteto utiliza o texto do Salmo 117: Louvai ao Senhor, todas as nações. Termina com um “Aleluia” gracioso, festivo.

Do nosso saudoso Camargo Guarnieri, a Missa Diligite – Amai-vos Uns aos Outros. Uma peça serena, que traz no Agnus Dei as características tão brasileiras do compositor.

De Gerald Finzi, uma peça de caráter eminentemente inglês, lembrando seus conterrâneos Vaughan Williams e Elgar, In Terra Pax, uma cena de Natal.

No final, o belo Oratório de Natal, de Camille Saint-Saëns, composto em dezembro de 1858, para soprano, mezzo, alto, tenor e baixo, coro, órgão e orquestra.

O Oratório de Natal de Saint-Saëns é uma obra modesta, porém rica em lirismo contemplativo.

Os solistas Roxana Kostka, Clarissa Cabral, Cristiane Minczuk, Rúben Araújo e Francisco Meira são todos integrantes do Coro da Osesp, embora tenham todos se apresentado como solistas em diversas ocasiões como esta.

Embora não houvesse quem se sobressaísse, todos estiveram plenos em seus papéis, não posso deixar de me referir à contralto Cristiane Minczuk. Gosto muito da voz grave feminina Não há como não se recordar da D. Cecília Boccardo e da Vera Ortolan, lá nos idos do Coral – sem qualquer desprezo a todas as contraltos que passaram pelo grupo.

Por fim, o Oratório encerra com o lindo coro Tollite hóstias, que tantas vezes cantamos e que convida a que se elevem louvores ao Senhor!

É uma pena que a Igreja tenha afastado a música erudita de suas celebrações, em detrimento de música de qualidade, muitas vezes, tão duvidosa. E justamente a Igreja, que foi a mecenas da mais bela arte produzida no mundo todo, não sabe agora utilizar o próprio repertório criado para si.

Me regozijo, então, em comemorar o Natal nas salas de concerto.

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