Vanderson Furlanetti e sua trajetória até o Rio de Janeiro
Há tempos que devia esta entrevista ao meu amigo Vanderson Furlanetti. Poderia apresentá-lo antes, mas durante o bate papo o artista são-manuelense, que hoje vive no Rio de Janeiro, fala sobre sua carreira e sua relação com nossa cidade, sua trajetória e suas expectativas.
Valmir: Vanderson, São Manuel ficou pequena pra você? Brincadeira. Lembro de seu início e da TEC TOC TUY, enquanto eu era Diretor de Cultura. Como foi este começo e o que chamou sua atenção para o teatro?
Vanderson: Antes de qualquer coisa, obrigado por este convite. Você não imagina o quanto fico orgulhoso, lisonjeado, de dar esta entrevista para um jornal com pessoas que eu admiro tanto. Amizade de tanto tempo que ainda se dirigem à mim como Vanderson, nome artístico que mudei para Van desde 2004, não por superstição ou numerologia, mas por homenagem à minha avó Helena, pessoa que amei tanto. Os que me chamam de Vanderson, com certeza são velhos amigos. E é bom saber que tenho esta amizade tão presente. São Manuel jamais me ficará pequena. É uma cidade que sempre terei no coração. É aí que está minha família, minha essência, minha base, onde tive os amores mais intensos e verdadeiros. Amores e paixões. As melhores! (risos) Mas, para a profissão que escolhi, depois de um tempo, havia de querer mais, beber outras águas, conhecer outros mares. E aí deu no que deu. Bons tempos sua época de Diretor de Cultura. Nada de cinema no teatro municipal (ops… já parei… vamos pular esta parte) e também meu início profissional como ator e escritor. O Tec Toc Tuy, musical que atuei, dirigi, escrevi, posso dizer que foi o marco neste profissionalismo. Ganhamos e perdemos muito dinheiro com este espetáculo. Éramos muito jovens, eu tinha 17 anos e o Alex Lima, que foi o que mais ficou em cartaz comigo tinha… deixa a idade do Alex pra lá, senão ele briga comigo. Ele é mais jovem que eu, ok? (risos) Éramos adolescentes com uma grande carta nas mangas mas tino nenhum para administração. Brigávamos como uns tontos e não queríamos guardar dinheiro para nada. Em função disso pagávamos fortunas para um motorista nos levar para as cidades das apresentações quando podíamos segurar um pouco a grana e comprar um carro. Na época do Tec Toc Tuy, 1997, foi quando resolvi ir para São Paulo me formar em Artes Cênicas, mas não foi o meu início no teatro. Eu comecei, vixe, em Branca de Neve e os 7 Anões, na escola Walter Carrer, em uma peça dirigida pela minha professora, Delcira Furlan. Até hoje quando a encontro faço questão de dizer que ela é a grande responsável por eu seguir esta carreira. E além dela, outras duas professoras têm ensinamento fundamental – mesmo – na escolha da minha profissão: Lucila Pugliesi, por toda a arte que a rodeia e a professora Clara, de Português (como era o sobrenome dela mesmo?). A professora Clara é a grande responsável por me incentivar a escrever. No Walter Carrer também, ganhei aos 9 anos um concurso de poesia. E, desde então, nunca mais deixei de criar personagens, histórias. Tive uma infância muito sozinha, rodeada por brincadeiras individuais. Isso para a imaginação é perfeito.
Valmir: Você estudou teatro em São Paulo, pelo que sei. Onde? E após isto, continuou seus estudos?
Vanderson: Colégio William Shakespeare. Eu tinha 16 anos quando cismei que tinha que me profissionalizar. Eu nunca gostei de escola, confesso. Me incomodava a convivência em grupo, não as aulas, mas isso afetava no gostar das aulas. Desde que aprendi a andar eu sempre andei nas pontas dos pés. O termo bullying é mais divulgado hoje, naquela época nem sabia como chamava, mas sofri com isso a minha infância inteira. Era muita zoação e em conseqüência disso me tornei uma criança na maior parte do tempo sozinha. Odiava Matemática, Ciências, Geografia. Eu soube desde muito cedo que queria ser ator. E não entendia o porquê de ter que estudar todas essas matérias se eu já sabia que queria estudar Teatro. Porque não podia ir direto para o teatro? Educação física era em horário trocado e eu falsificava as minhas dispensas dizendo que estava trabalhando só para não ter que frequentar as aulas. Só adulto fui perceber o quanto todas essas matérias me foram essenciais e quanto as uso para a minha profissão e para minha vida. Fui parar no Colégio William Shakespeare porque na época, 1997, esta era a única escola técnica em Artes Cênicas do Brasil. Eu não queria cursar o colegial normal e esta escola foi para mim a salvação. Só que era uma escola paga. E eu não tinha um centavo furado. Então consegui metade da minha bolsa de estudos através de uma conversa entre a Diretoria de Cultura (né, Valmir? né, Kiko?) e a diretoria do colégio. Arrecadei com o comércio de São Manuel o dinheiro das duas primeiras mensalidades, cinco reais aqui, dez ali… e fomos eu e minha mochila para São Paulo, sem saber onde iria dormir, sem saber o que iria comer, só com a vontade de estudar e, enfim, me formar. Foram muitas as vezes que dormi em terminais rodoviários. E muitas as vezes que tive que me alimentar com cinqüenta centavos, um real, que era o que eu tinha no bolso. Estudei dois dos três anos de curso. Depois me vi forçado à voltar para São Manuel. Fiquei um ano frustrado com o fato de não ter conseguido atingir minha meta. Mas acabei conseguido uma bolsa integral da Leda Vilella, dona da escola e fui morar na casa da atriz Anna Carolina Bispo, por quem tenho um amor incondicional e eterna gratidão. Depois de formado vim descobrir que uma leva de gente mau-caráter vende por aí o famoso DRT, registro profissional dado aos atores quando formados. Teria feito teatro na minha cidade e não passaria por metade do que passei. Mas… tudo é válido, tudo é bom, de tudo se tira proveito. E estudar, sempre! Um ator não pode parar de estudar. Seja na escola, na universidade, à olhar gente na rua, à entender emoções. Esta é a profissão.
Valmir: São Paulo ou Rio, qual o melhor lugar para se fazer teatro?
Vanderson: São Paulo!!! (risos) Tô no Rio porque quando vim pra cá eu tinha aquele ingênuo sonho de virar popstar. Achava que ia ser o Fiuk, olha que tonto! Isso não existe. São Paulo tem mais opção, mais teatros, mais gente fazendo teatro, mais público. Rio de Janeiro tem mais TV, mais gente fazendo cinema, mas são grupos muito mais fechados que na capital paulista. Acabei ficando no Rio porque as coisas foram acontecendo, não do jeito que se quer, pois nunca as coisas são exatamente do jeito que a gente quer, mas não tenho do que me queixar. Tenho conseguido aqui engatar um trabalho atrás do outro, mas confesso que as melhores peças e trabalhos que fiz foram em São Paulo. Com a Cris Nicolotti, por exemplo, no famoso “Vai Tomar no…”, onde eu era o Bob Dylan da música. O bom é que se pega um voo ou um ônibus e rapidinho se está em qualquer um dos dois lugares. Posso morar no Rio e trabalhar em São Paulo. Nestas semanas em que estou em cartaz com o Terça Insana, por exemplo, saio daqui na própria Terça, num vôo às duas ou três da tarde, me apresento em Sampa e volto de ônibus no mesmo dia para o Rio. A proximidade permite isso. Pra trabalho, sem dúvida, São Paulo. Mas o Rio de Janeiro continua tão lindo…
Valmir: Você já mora no Rio há quanto tempo? Quais são suas atuais atividades?
Vanderson: Estou há 8 anos aqui. Para sobreviver da minha profissão há de se trabalhar com todas as vertentes dela. Minha renda fixa sai de escolas particulares em que dou aula de teatro para crianças. E faço muita intervenção em festas também. Cenas cômicas, geralmente. Para se viver nesta área tem que se criar uma empresa em torno de si. Eu trabalho para mim todos os dias das 10h às 20h, horário em que procuro testes, cursos, oportunidades como ator, escritor, comediante, professor, produtor, diretor. O Tec Toc Tuy me ensinou à ser um pouco de tudo isso. Afinal, foram 5 anos de ralação por todo o Estado de São Paulo. Aprendíamos na marra!
Valmir: Soube de duas incursões recentes suas, uma no programa do Huck, outra no Terça Insana. Como foram estas experiências?
Vanderson: Fiquei em décimo lugar entre dois mil candidatos na escolha de um novo humorista para o Zorra Total através do programa do Luciano Huck. Mas eu não me inscrevi! Um belo dia me ligam do Projac dizendo que tinham visto um vídeo meu na internet (digitem Tuninho no YouTube) e que eu havia sido selecionado para o programa. Claro que eu achei que era sacanagem e fiquei zoando a Gabriela Pelicano, produtora-chefe do Luciano Huck por um tempão. Mas era verdade! Fui selecionado, fiquei entre os 100, depois entre os 20 finalistas. Mas meu quadro tinha muito palavrão. Na última eliminatória resolvi tirá-los, afinal o Caldeirão do Huck passa Sábado à tarde. Foi onde rodei! Eles queriam os palavrões. Pra botar “piiiiiiiii”. Mas ninguém me disse nada! Fui desclassificado em décimo lugar às 18h. Às 19h entrei para o Terça Insana.
Valmir: Você acha que comédia é um gênero menor? Quais seus autores teatrais preferidos?
Vanderson: Definitivamente não! Mas entendo que há um risco enorme de se banalizar a comédia e ela se perder. Há de se ter time, prudência, bom bom-humor e nenhum pudor. Pudor no humor não existe. Mas existe piada mal feita. Eu tenho uma frase da minha querida Fafy Siqueira que diz que “gargalhada é orgasmo”. Concordo totalmente com ela. O problema é que nem todos sabem onde está o ponto G… (risos) Eu atualmente estou produzido junto com a diretora teatral Ticiana Studart uma peça com a Letícia Sabatella sobre Beckett, autor que eu achava literalmente absurdo e incompreensível. Com a convivência até que Beckett e eu estamos nos dando bem… ele não é um cara tão difícil assim (risos). Mas sou mais Shakespeare e Pirandello. E amo esses autores-miojo desta nossa geração. Gente que produz, com primor e qualidade, um quadro por semana se for preciso. E neste ponto destaco Fábio Porchat (Comédia em Pé) e a minha atual diretora Grace Gianoukas (Terça Insana). Os textos são criados com uma agilidade que parecem psicografados.
Valmir: Você já esteve apresentando duas peças em São Manuel, desde que foi para o Rio. Tem planos de voltar?
Vanderson: Sim!!! Muitos!!! Minha intenção era levar um espetáculo por ano para a minha cidade. Mas sabe quanto se gasta, no mínimo, para levar uma produção do Rio de Janeiro até aí? Oito mil reais brincando. A última peça, “Pelados Somos Iguais”, mesmo com 500 pessoas na plateia, me traumatizou. Eu tenho que deixar claro aqui que tenho apoio em quase tudo que preciso. Os jornais, todos, inclusive este à quem devo muito, me dão matérias de primeira página e eu nem peço. As rádios divulgam o dia inteiro, já cheguei à dar 8 entrevistas em um mesmo dia. Até carro de trio-elétrico eu consigo com um grande amigo que não posso falar o nome porque é ano eleitoral. Hotel, alimentação, água mineral, tudo que precisamos para o essencial eu tenho com a minha cidade. Só que imagina transportar equipe inteira e cenário do Rio até aí… não há apoio com passagens aéreas, com divulgação em cartazes, panfletos, locação de luz, equipamentos… e aí acaba saindo do bolso de quem produz. Eu envio todos os anos projetos bem interessantes para as maiores empresas daí da cidade. Já enviei propostas, inclusive, para que o espetáculo fosse aberto à população se consumissem determinada marca. Mas nunca entramos em um acordo. E o meu projeto de levar um espetáculo por ano para São Manuel acabou ficando só na utopia. Eu prometi para o Alex Lima que assim que o Tec Toc Tuy completar 15 anos (Maio de 2012), se o mundo não tiver acabado antes de Dezembro, faremos uma megaapresentação com o espetáculo repaginado, do mesmo jeito em que apresentei há dois anos atrás aqui no Rio, com artistas cariocas e novos arranjos. Mas aí será produção 100% São Manuel, e pretendo que a mesma não tenha cobrança de ingressos. Eu de rato Tec, Alex de gato Tuy e o Fabiano Minichello e o Renato Morales que se mordam pra decidir quem será o cachorro… (risos)
Valmir: Quais seus planos futuros e o que você aconselharia para quem mora aqui e quer fazer teatro?
Vanderson: NÃO SAIAM DAÍ!!! Se eu usasse esse meu autoconselho, não teria passado metade do que passei. Há de se fazer muito teatro aí em São Manuel e por sua região antes de se jogar em uma capital. Senão a selva te engole!! Tem que se pegar gente que tá em volta querendo fazer teatro também, montar um grupo aí, trabalhar bastante, ter tato das coisas, discernimento do que é ser ator e o que é ser estrela. Todas as estrelas são cadentes. De um jeito ou de outro. Há que se ter estrutura para se manter no céu com os pés na terra. E se não tiver respaldo pra se criar um grupo novo, gritem o Adilson Blanco, o Lindomar Teixeira, talvez o Alex Lima queira tirar algum projeto do papel. A Giovana Brombini acabou de profissionalizar atriz. Mas é essencial começar aí, na cidade. Ou no seu entorno. Porque agora, com a internet, tudo está muito mais próximo. Dá pra saber quando se tem teste em São Paulo, no Rio, em Bauru… e aí sai da cidade somente para o teste e volta. Sem dúvida vai ser muito mais barato e sem sofrimento para aqueles que talvez não tenham um monte de grana pra se estabilizar em alguma cidade grande enquanto as coisas não acontecem. E as coisas podem demorar muito para acontecer. Ou podem nunca acontecer. Registro profissional se tira em Bauru. Três peças profissionais dão direito ao DRT, desde que devidamente comprovadas. E gente profissional aí tem. Essa doideira de “vou pra cidade grande e vou acontecer” é loucura e dá certo para poucos. Ninguém aqui se chama Tieta, certo? E mesmo assim, olha as coisas cabeludas que essa Tieta fez… E os meus planos futuros… bom, o plano futuro é não fazer planos. Os trabalhos surgem para quem procura e nesta carreira tudo é de um dia para o outro. Em uma semana tudo muda. Eu no mês passado não sabia que quinze dias depois estaria no Terça Insana, maior grupo de humor do Brasil. Já pensou se tivesse programado uma viagem? Quero trabalhar muito em tudo que for válido e me aparecer. É o que tem pra hoje. Quando se semeia não há porque não se colher. É trabalhar, buscar sempre, e entregar na mão de Deus. Ele sabe o que faz…

Olha!!!
Botou tudinho na íntegra!! Isso que é um amigo querido!
Do jeitinho que saiu no jornal!!! Ah já saiu!!!! Abs.
Ótima matéria, feita por pessoas profissionais e inteligentes… respondida por pessoas coerentes!!
Parabéns!!!
Pacheco